quarta-feira, 22 de julho de 2009

Edmária é aluna do 3º ano do Ensino Médio - MATUTINO

A participação da sociedade na construção das propostas educacionais em suas escolas é essencial para que estas ofereçam um serviço de Educação Pública de qualidade e que ajude a formar cidadãos atuantes e preparados para interagirem com as adversidades sociais se posicionando de maneira ativa nesse contexto. A construção de um espaço educativo que respeite à população só será possível quando estiverem à frente das gestões escolares, pessoas comprometidas com a educação e o bem-estar da maioria.

domingo, 19 de julho de 2009

Brasil

Futuro

Bem-estar

Cidadania




Escola, Participação e Cidadania

A constituição de 1988 representa um marco para sociedade brasileira, pois a cidadania é definida como um dos princípios básicos da vida, onde o cidadão possa exercer seu papel na construção da democracia social. As instituições, como as escolas, e os atores sociais precisam estar comprometidos coma formação cidadã.A formação cidadã deveria ser uma das preocupações primordiais da escola. Gadotti (2001) define cidadania como a consciência de direitos e deveres da democracia e defende uma escola cidadã como a realização de uma escola pública e popular, cada vez mais comprometida com a construção de uma sociedade mais justa e igualitária. Para isso, a escola deve propiciar um ensino de qualidade, buscando a formação de cidadãos livres, conscientes, democráticos e participativos.É isto que se espera da cidadania moderna, um cidadão sempre alerta e bem informado, critico, criativo, capaz de avaliar suas condições sociais, econômicas, dimensionar sua participação histórica, reconstruir suas práticas participar decisivamente da sociedade e da economia. (DEMO, 2002, p. 34).A escola precisa então, repensar a formação de seu aluno, ajudando-o a tomar o rumo para a idealização de sua própria vida, resgatando o poder político da população na elaboração de valores sociais calcados na emancipação humana e na vontade democrática. Esta é feita por meio da escola baseada na democracia, assumindo a implantação de uma gestão mais participativa, pressupondo que seus alunos, professores e pais tenham a capacidade de participar efetivamente do processo de formulação de ações pertinentes a sua resolução. (ARAÚJO, 2005)Segundo Galvão (2003, p, 01) a educação para a cidadania pretende fazer de cada pessoa um agente de transformação. A educação escolar além de ensinar o conhecimento científico, deve assumir a incumbência de preparar as pessoas para a cidadania. Isso exige uma reflexão que possibilite compreender as raíses históricas da situação de miséria e exclusão que vive boa parte da população.A formação política que tem no universo escolar um espaço privilegiado deve propor caminhos para mudar as situações de opressão. Muito embora outros segmentos participem dessa formação, como a família, ou os meios de comunicação, não haverá democracia substancial se inexistir essa responsabilidade propiciada, sobretudo pelo ambiente escolar (GALVÃO, 2003, p. 01).Lakatos (1999) destaca que democracia é a filosofia ou sistema social que sustenta que o indivíduo pela sua condição de pessoa, independentemente de raça, cor, sexo ou religião, deve participar dos assuntos da comunidade e exercer nela a direção que lhe corresponde. A participação é o primeiro passo para consolidar uma democracia capaz de garantir os direitos de todos os cidadãos. A escola precisa esta ligada a idéia de liberdade, democracia e cidadania. A escola não pode preparar para a democracia a não ser que também seja democrática. Seria contraditório ensinar a democracia no meio do autoritarismo. É preciso que o ambiente escolar tenha um caráter democrático e participativo, que reconheça e respeite os interesses e perspectivas particulares.Participação é um dos cinco princípios da democracia. Segundo o sociólogo Herbert de Souza (2005) sem ela, não é possível transformar em realidade, em parte da história humana, nenhum dos outros princípios: igualdade, liberdade, diversidade e solidariedade. Nesse sentido, a participação não pode ser uma possibilidade aberta apenas a alguns privilegiados. Ela deve ser uma oportunidade efetiva, acessível a todas as pessoas. Além disto, é preciso que ela assuma formas diversas participação na vida da família, da rua, do bairro, da cidade, na escola e no próprio país. Participação é, ainda, um direito estendido a todos sem critérios de gênero, idade, cor, credo ou condição social.Só com ampla participação, é que se pode lutar pelos princípios da democracia, neutralizando as formas de autoritarismo freqüentes na sociedade, sendo geradas as condições para o exercício pleno da liberdade e da cidadania, possíveis para consolidar a sociedade democrática.Ainda segundo Souza (2005) a resignação e o medo da participação são resultados da cultura autoritária, que perpassa nossa história e instalou-se na cultura brasileira. Tem-se, então, o cidadão limitado, fechado, sem iniciativa, dependente. Mas, nos últimos anos, uma outra cultura vem surgindo, em oposição à pressão exercida pela cultura autoritária: é a cultura democrática, a cultura da participação. O Brasil Passou por movimentos amplos de participação da cidadania que ajudaram a mudar muito a cara do país, como é o caso da luta contra a ditadura militar, fim da anistia política, Diretas Já. A cidadania também ampliou-se, com a participação da sociedade na elaboração da Constituição de 1988; pela primeira vez em nossa história a sociedade participou ativamente da elaboração da nova Constituição através de seminários, debates públicos, propostas de emendas populares que colheram milhões de assinaturas por todo o País. Outros movimentos também foram frutos da participação como o caso do movimento fora Collor, a sociedade se mobilizou através do Movimento Pela Ética na Política, que culminou no processo de cassação do presidente. É importante destacar que muitos outros movimentos vêm se desenvolvendo no Brasil, em diferentes níveis e momentos de nossa vida política e cultural. É através dessa participação que está surgindo uma nova juventude, um novo cidadão e novas condições para que o Brasil possa superar a miséria e a exclusão e chegar à condição de uma sociedade democrática. A participação é o caminho da democracia, e quanto mais ampla e profunda, melhor. (ZOUZA,2005)Sendo assim, é possível ensinar e buscar formas de participação social que ajudem na construção de uma cidadania, constituídas de pessoas ativas, conscientes de seus deveres e comprometidas com a conquista dos direitos humanos. A prática participativa permite questionar os valores e os interesses que sustentam a sociedade.Não se aprende a participar teorizando sobre os processos participativos, aprende-se sim a participar participando. Ensina-se a participar abrindo espaços para que as pessoas participem. Uma prática social participativa ensina a cidadania e amplia os limites da qualidade de vida.Promover espaços participativos é educar para a vida. Somente assim será possível o respeito e a valorização das diferenças presentes em nosso território brasileiro. Se isso não acontecer, alguém será excluído, e esse alguém com certeza será o mais fraco. Isso é um desafio e um compromisso da escola para a formação de uma sociedade democrática, justa, igualitária e solidária.

Relacionados - COMPREENDENDO ÉTICA

Referências Bibliográficas

ARAÚJO, O.J.M. Professores intelectuais transformadores e a formação do aluno cidadão crítico. 2005. 37 p. Monografia (Graduação em Pedagogia). Universidade Federal do Tocantins. Arraias-TO.
DEMO, Pedro. Pesquisa e construção do conhecimento: metodologia científica no caminho de Habermas. Rio de Janeiro- RJ. 2002. P. 33-35
GADDOTI, Moacir. Dimensão política do projeto pedagógico. SEED/MG. 2001.
GALVÃO, Roberto Carlos Simões. Educação para a cidadania: o conhecimento como instrumento político de libertação In: http://www.educacional.com.br. Acesso em 25/01/2003.
LAKATOS, Eva Maria. Sociologia geral. 7.ed. São Paulo: Atlas, 1999
SOUZA, Herbert. Participação cidadã. In: http://www.brazil-brasil.com. Acesso em: 25/02/2005.

Lazer


Lazer, cultura e educação física:possibilidades dialógicas no espaço escola-comunidade


Anália de Jesus Moreira
nanamoreiraam@hotmail.com

Maria Cecília de Paula Silva
cecilipaula@yahoo.com.br

Soraya Corrêa Domingues
socodo11@yahoo.com.br


Resumo

Esse artigo reflete sobre o lazer na escola, analisando manifestações da cultura comunitária e sua relação com a pedagogia tradicional e sugere novas discussões sobre o conceito de lazer como fator oposto ao trabalho, na visão hegemônica. Estudo de natureza qualitativa, descritiva, que analisa o contraste de lazer como tempo livre definido por Marx, a partir do tratamento dado ao lazer na escola e a Educação Física mediando o debate. O recorte é feito por meio das relações multiculturais, considerando a escola publica periférica e as manifestações ditas “sub-cultas” a exemplo do arrocha (1), pagode, hip hop, rap e seus componentes agregados de valores sociais e políticos da comunidade. Como resultados, apontamos o lazer como aporte histórico construtor das identidades e sua repercussão no ambiente escolar, tendo em vista o que desenha a Lei 10.639/03 (2) que tornou obrigatório o ensino da história e cultura afro brasileira, africana e indígena no ensino básico brasileiro.
Unitermos: Lazer. Cultura corporal. Escola. Comunidade.


Introdução

O debate sobre o lazer na escola tornou-se um desafio diário. O problema justifica-se na necessidade de compreensão das abordagens e contextos em que o lazer é visto como fator oposto à produção. A escola como espaço privilegiado de debates, é, pela magnitude de comportar diversidades, uma ressonância de relações sociais assimétricas. Nesta perspectiva, consideramos oportuno levantar a discussão a respeito de uma prática do lazer no espaço escolar que esteja casada com as manifestações construídas na comunidade.

Primeiro porque se faz necessário buscar um entendimento sobre o que significa lazer para a comunidade e como essa mesma comunidade estabelece relações entre o lazer e a prática pedagógica. Em segundo lugar, porque consideramos a prática de lazer na comunidade como um dos pilares do processo de politização, organização e socialização comunitária, o que aponta como importante tema para ser tratado no contexto educacional como conhecimento escolar.

Compreendemos a educação como mediadora de um contexto social determinado, que relaciona e reflete seu tempo e contextos, auxiliando a explicitação dos interesses de classe e do projeto de sociedade que ela explicita e conforma, ou para se tornar um dos instrumentos de sua transformação.

A partir deste movimento dialético, necessário se faz criar redes dialógicas entre a escola e a comunidade. Uma dessas redes, se considerarmos a ação efetiva (ou efetivação) no que se refere ao envolvimento do grupo, pode ser definida a partir de praticas de lazer que podem ser exploradas em ambos os espaços. Ao mesmo tempo, é preciso buscar compreensão sobre os papeis dos dois aportes, escola e lazer, na construção de uma sociedade com características emancipatórias.

Marcellino (1997) nos diz que a incorporação do termo “lazer” ao vocabulário comum, portanto, convencionado, tem um caráter de “novo, de recente e que essa percepção iniciante, nos leva a uma simples associação do lazer como experiência individual vivenciada, restrita aos conteúdos de determinadas atividades” (p.21). No entanto, o lazer no seu significado de tempo livre, não é novo, sendo preciso considerar que os enfoques históricos sobre lazer esbarraram em seu valor oposto ao trabalho: “O que ocorre nesses casos, com maior freqüência, é a mitificação do trabalho, gerando, quase sempre, uma atitude de desconhecimento de outras dimensões do humano, sobretudo das possibilidades pela vivência do tempo de lazer.” (Marcellino, idem).

Por meio da vivência profissional nos espaços escolares e dos resultados de nossa inserção na pesquisa histórica em comunidades, buscando levantar as práticas de lazer e as relações estabelecidas entre o lazer e o trabalho, bem como ao compreendermos a análise e discussão do tema trabalho e ócio proposta por autores marxianos, estaremos propondo no presente artigo uma reflexão sobre este tema.

Associamos a esta discussão, a componente “cultura popular” enquanto fator fronteiriço da resistência comunitária aos valores e manifestações midiáticas e hegemônicas. Com estas prerrogativas, debater lazer como aporte na escola e na comunidade pode oportunizar uma prática que considere e respeite às identidades e manifestações culturais do lugar. Para isso, perguntamos: e a escola, estaria disposta a acolher esse aporte como resposta das aspirações do seu entorno? Qual o papel da Educação Física na condução do debate? Estas são reflexões que propomos neste instante.

Lazer, educação física, escola e comunidade

O lazer atualmente é considerado dever do Estado e garantido, de forma ampla, na constituição Federal de 1988, que menciona o direito ao lazer, de forma clara entre os direitos sociais no art. 6º, embora não de forma específica, a não ser em seu art. 227, ao colocá-lo junto a outros direitos sociais e individuais, como dever do Estado; na seção III do Cap. III, do Título VIII da Constituição Federal, quando explicita o desporto, que pode ser relacionado ao direito à educação, cultura e lazer; por fim, no art. 217, § 3º, ao explicitar o dever do Poder Público em incentivar o lazer como forma de promoção social. Os Parâmetros Curriculares Nacionais da Educação Brasileira, por sua vez, referem-se à importância do lazer no espaço pedagógico,

O lazer e a disponibilidade de espaços para atividades lúdicas e esportivas são necessidades básicas e, por isso, direitos do cidadão. Os alunos podem compreender que os esportes e as demais atividades corporais não devem ser privilégios apenas dos esportistas ou das pessoas em condições de pagar por academias e clubes. Dar valor a essas atividades e reivindicar o acesso a elas para todos é um posicionamento que pode ser adotado a partir dos conhecimentos adquiridos nas aulas de Educação Física.”(Parâmetros Curriculares Nacionais, vol. 03 Educação Física. 2003)”.

Em contrapartida, conhecemos as dificuldades dos ambientes escolares, notadamente públicos e periféricos, de serem visualizados como potenciais espaços de lazer. Principalmente, por não estarem fisicamente identificados com a prática e carecerem de condições básicas para tal, a exemplo de quadras, salões e áreas verdes, entre outros. Sabemos também que estes espaços sofrem as conseqüências de teorias pedagógicas não críticas, eivadas por concepções “mercadológicas de lazer e educação”, que dão pouca visibilidade a essas possibilidades.

Assim, não pode ser considerada ingênua a constatação de rejeição precoce e imediata a eventos comunitários na escola quando estes envolvem manifestações extracurriculares, como a capoeira, ensinada por mestres não letrados na norma culta, o baba(3) comemorativo, o samba-pagode massificado e comercial, e até os movimentos emergentes como hip-hop, rap e arrocha, classificados pejorativamente como sub-culturas.

Estas manifestações podem até encontrar acolhimento espacial na escola, mas são desprezados em seu componente agregador de valor e, portanto, dotados de pluralidade de identificação. Ao situarmos a prática pedagógica da educação física no espaço escolar, questionamos sobre a sua possibilidade dialógica como fomentadora de uma práxis libertadora. Ao fazer isso uma questão que vem à tona e que ganha espaço importante de análise é a do tempo livre na formação omnilateral do ser humano. Sobre esta questão, Marx desenvolvia a seguinte compreensão: “economizar tempo de trabalho é aumentar o tempo livre, isto é, o tempo que serve ao desenvolvimento completo do indivíduo”. “O Tempo livre para a distração, assim como para as atividades superiores, transformará quem dele tira proveito num individuo diferente.” (Marx, Fondemente de la critique de lê economie politique, apud Dumazadier, 1994). Nesta compreensão, nosso desafio passa a ser possibilitar o diálogo e valorizar as subjetividades enquanto nexo social e político.

Os trabalhos de Eliade” sobre os mitos banidos da racionalidade do trabalho e reentronizados no imaginário do lazer: de Maffesoli sobre a socialidade de que se vive fora das instituições atuais; de Yonnet sobre os investimentos de si próprio nos jogos de azar, depois dos trabalhos de Roger Caillois sobre a estrutura séria do jogo em geral, todos estes trabalhos completados pelas pesquisas empíricas da sociologia desde os anos 50 na Europa e Estados Unidos, nos permitiram compreender melhor a profundidade que dever ser chamado de “valores sociais” que se desenvolvem dentro do crescimento do tempo livre”. (Ibidem Dumazadier, p. 47.)

Estudiosos do lazer defendem a construção de uma pedagogia animadora como ponte escola-lazer, afirmando, porém, não se tratar de um simples aporte, “de rechear o currículo com mais uma disciplina (matéria) onde se aprenda a utilizar o ‘tempo disponível’ em cargas horárias semanais, fixadas dentro da (grade) (Marcellino, 1997, p. 145).

Defende o autor uma pedagogia que não isole as atividades de lazer nas escolas, transformando-as em ‘ilhas’ de atividades extracurriculares, mas que esta prática contemple a reflexão vinculando a escola à realidade do aluno. “Trata-se de aprender o ‘samba’ no colégio, samba aqui entendido como Cultura popular e aprender como recuperação de sentido, mediada pelo conhecimento”. (idem).

Ao pensarmos essa questão no trato escolar, na compreensão de uma reestruturação curricular compreendemos que a escola, por constituir um dos espaços institucionalizados de transmissão do conhecimento historicamente produzido, se trabalhado de forma dialógica e a partir da cultura local, em sintonia com a cultura geral, e, no caso específico, do lazer, poderá contribuir para a formação omnilateral, bem como para o jogo da autonomia político-comunitária. Esta rede de relações, se estabelecida desde o princípio e constantemente fortalecida pelos movimentos sociais e pelo projeto político-pedagógico escolar, possibilita a formação da resistência cultural e comunitária, passando a escola a servir como rede potencial do diálogo.

Lazer e cultura popular como possibilidades para uma educação emancipadora

Partimos do entendimento que o homem é um ser historicamente construído e culturalmente modificado dentro de uma sociedade, dotado se um senso criativo capaz de interferir na cultura a qual pertence e por ela também ser modificado. Esta concepção nos traz a imagem do ser humano como ser criativo, produtor, reprodutor e transformador cultural. E, admitindo a cultura como sendo uma palavra impregnada de história e encharcada de significado, é válido pensar que se proteja e preserve o entendimento de conceitos importantes para a transmissão de um legado através de gerações.

No entanto, o que se tem percebido é que diversidade da herança cultural popular tem sido historicamente afastada do âmbito educacional brasileiro, especialmente a cultura corporal e arte. Isto porque, a educação no Brasil percorreu uma trajetória distante dos movimentos e das classes populares, embora presenciemos, ao longo do século vinte, diversos e diferentes movimentos em que as organizações populares propunham uma concepção popular de educação que encontrava certa expressão. No entanto, as políticas públicas brasileiras até hoje, ainda não deram a devida importância e tratamento à temática educação e cultura popular.

Cabe destacar algumas iniciativas dignas de registro a esse respeito na atualidade como, por exemplo, a consideração da diversidade cultural pela legislação e diretrizes educacionais, bem como as suas especificidades: educação do campo, educação indígena, respeito e valorização da cultura afro-descendente pelo currículo escolar, para citar algumas.

No Brasil podemos averiguar um quadro que se configurou durante o século vinte para compreendermos avanços, retrocessos e permanências, ocorridos no período, relacionada à temática da cultura e educação popular. Moacir Gadotti (1981), ao realizar um profundo e exaustivo estudo sobre deste período, compreende que o primeiro movimento educativo com a preocupação de fomentar a díade cultura e educação popular surge em 1920, sendo que, para este movimento, a educação fora considerada um instrumento privilegiado para a participação dos trabalhadores na política. Movimento este barrado pelos liberais católicos, que disputavam a hegemonia dos projetos político-educacionais da burguesia.

Contraditoriamente, essas disputas entre as frações da burguesia pela dominação do aparelho do Estado oportunizaram aos movimentos sociais algumas conquistas como, por exemplo, a formação de cursos para operários, objetivando a participação política de massa (início 1930, no Distrito Federal), interrompidas, no entanto, com a repressão do Estado Novo (PAIVA, 1970). Já na década de 1940, por meio dos “comitês democráticos” organizados em municípios e bairros das grandes cidades surge novo movimento voltado à educação das classes mais pobres, até então excluída deste processo e visava à dotação de maiores verbas para a educação e a democratização do ensino fundamental.

Para Gadotti (1981) o movimento de renovação da educação ocorrido neste último período relatado significou um marco na história brasileira, devido a fatores e reflexões que vieram à tona e configuraram um avanço na educação brasileira. Temáticas como a dimensão social e política do profissional de ensino ganha relevo, por questões como: a apropriação durante muito tempo pela educação do idealismo pedagógico que introduzia a falsa separação entre instrução, treinamento, etc., visto que tôo treinamento e toda instrução são atividades que implicam uma educação.

Em acordo com a interpretação deste autor, nas sociedades dependentes, colonizadas e conservadoras, considerava-se a boa educação apenas aquela que reproduzia as relações dependência, isto é, apenas aquela que incutia os valores conservadores, aquela que conseguia reproduzir a dependência; “assim, quando erigimos um tipo de educação como a educação, a única verdadeira, estamos não só limitando o conceito de educação como estamos, sob o ponto de vista social, descaracterizando esse conceito de suas virtudes dialéticas, isto é, contraditórias”(1981, p. 8).

Em seguida, aponta um debate crescente a respeito do contexto sócio-político da sociedade em conflito. Nesta polêmica que se configurava no cenário educacional brasileiro, destacamos alguns pontos relevantes que até hoje estão na pauta de nossas inquietações.

Entre as muitas questões polêmicas que se tornaram bandeiras de luta dos movimentos sociais organizados e favor da educação como, por exemplo, a organização sindical pode-se destacar os seguintes pontos: a consideração do professor como um profissional em conflito; a tarefa coletiva de restabelecer a confiança na educação e a afirmação da educação como eminentemente política, que “há ainda poucos anos, passava por uma profissão de fé revolucionária e causava certo escândalo, conforme nos diz Bernard Charlot (1980, p.11-3).).

Relacionado à cultura e educação popular, quando analisadas historicamente, observamos que há uma memória da mesma que reivindicava e/ou desenvolvia políticas públicas específicas a respeito desta questão no período como, por exemplo, Paulo Freire e seu sistema de educação popular; o movimento de educação de base desenvolvido por movimentos sociais específicos; as idéias geradoras a respeito de cultura popular propaladas por intelectuais, artistas e educadores e pelos movimentos estudantis. Este corte nas questões educacionais, sociais e econômicas, imposto ao Brasil pelo regime militar instalado em 1964, acarretou uma profunda crise, que se estende até nossos dias.

Novas referências para o lazer e a escola: a cultura como ponte

O homem surge na história como um ser cultural e ao agir, ele atua culturalmente apoiado na cultura e dentro de uma cultura. Seu potencial criador representa um fator de realização e transformação que afeta a própria condição humana, bem como os contextos culturais. Como vimos a criatividade é inerente a todo ser humano, e desenvolve-se ao longo da vida, através dos gestos e atitudes do homem dentro de seu contexto sócio-cultural, a fim de mudar e transformar as coisas. Podemos assim considerar a criatividade como uma potência de agir ligada a tarefas essenciais à vida humana.

A escola passa por uma "crise de sentidos", na medida em que negligencia os sentidos humanos que podem ser desenvolvidos pelo ato
criador. A criatividade dentro do espaço escolar não necessariamente se aplica nas aulas de artes, mas abrange atividades que vão desde a escolha dos conteúdos que serão trabalhados nas disciplinas, até as formas de avaliação, a organização do espaço físico da escola, etc. O exercício das artes representa um dos níveis de liberação da criatividade humana, pois também indica um ato criador que busca se concretizar através de formas, que guardam sentidos e saberes particulares. Estamos falando do papel social da arte na humanidade, o que significa a atuação do homem ao longo do seu processo histórico.

Ao longo dos tempos, diversas acepções têm se configurado acerca da arte, seus sentidos e significados, o que evidencia que esta é quase tão antiga quanto à origem do próprio homem. Ernest Fischer, fala que a arte pode ser entendida como "substituto da vida", mas que não se encerra neste conceito, e afirma que "a arte concebida como o meio de colocar o homem em estado de equilíbrio com o meio circundante - trata-se de uma idéia que contém o reconhecimento parcial da natureza da arte e da sua necessidade" (FISCHER, 1967, p. 11).

A maneira mais inteligente de "promover a cultura" e "animar" o desenvolvimento das ciências, das artes e das letras ainda é munir substancialmente o ensino e a pesquisa em todos os seus ramos (Alfredo Bosi, Cultura Brasileira: temas e situações, 1988) O intuito de investigar e coletar dados sobre as artes da cultura popular, buscando compreender estas manifestações no âmbito histórico-cultural e
estético, estabelecendo um arquivo histórico, mapeamento e catalogação desta produção artístico-cultural é outro resultado que merece discussão.

Cultura corporal negra: viéis de um dialogo para o reconhecimento do lazer na escola

No ano de 2007, A Tarde, o maior jornal de Salvador, publicou uma série de reportagens sobre a dificuldade de implantação da Lei *10.639/03 nas escolas da rede privada. Embora estejamos ainda refletindo sobre a substituição da Lei 10.639/03 pela Lei 11.465/08, salientamos que a troca de números não invalida nossas considerações sobre o tema proposto neste artigo(4). Do contrário, acreditamos que a promulgação da nova Lei amplia nosso foco de interesse uma vez que reconhece as contribuições do povo indígena, fortalecendo nosso objetivo de visibilizar a cultura indígena como produtora de sentidos e identificações. A reportagem, assinada pelo jornalista Victor Pamplona nos informa da decisão do Ministério Público em fiscalizar os projetos Políticos Pedagógicos que não estão contemplando a Lei. Sob o título “Escolas privadas não temem inquérito do MP”, o jornalista revelou:

O cumprimento da Lei 10.639/2003 pelas escolas baianas entrou na agenda do Ministério Público estadual na última semana. Os promotores Almiro Sena (Combate à Discriminação) e Márcia Virgens (Defesa da Educação) se reuniram com representantes de 24 instituições particulares de Salvador para pedir que, até a próxima quarta-feira, 16 de maio, encaminhem ao MP o plano político-pedagógico adotado por elas.” “Têm chegado ao nosso conhecimento notícias de escolas que estão dificultando a implantação das mudanças. O fato de a Bahia não ter regulamentado a lei não serve como desculpa, pois desde 2004 o Conselho Nacional da Educação divulgou as diretrizes para todo o País”, diz Almiro Sena. “Depois da entrega dos projetos, vamos criar uma comissão de especialistas para avaliá-los”.

A série jornalística nos revela um momento de reflexão em torno da motivação para a resistência a aplicação da lei, especialmente na rede estadual e na rede privada. Na busca da explicação, nos confrontamos mais uma vez com as abordagens, feitas no capítulo anterior sobre as bases formativas da educação brasileira, aprumadas em políticas importadas, notadamente norte-americanas e eurocêntricas que historicamente nortearam nossa práxis.

Salvador foi a primeira cidade a aplicar de forma obrigatória o ensino das africanidades nas escolas do ensino fundamental, cuja repercussão precisa ser justificada através de pesquisas, debates e reflexões. A Lei que tornou obrigatório o ensino da história e da cultura afro-descendente, africana e indígena nas escolas básicas de todo o país propõe outros olhares sobre o processo político-pedagógico, indicando um repensar da práxis bem como uma reviravolta histórica no currículo e na relação escola-sociedade.

O grande primeiro impacto recai sobre a proposta de legitimar nossa identidade numa perspectiva étnico-racial. A Educação Física por sua vez assume em relação a lei 10.639/03 o seu contraste epistemológico. A Educação Física tem sua origem ligada às instituições militares e à classe médica e essa relação de época se assumiu como simbiótica também na pedagogia, o que transformou a área em ponto estratégico para a difusão das práticas eugenistas e higienistas.

Visando a educação de corpo e tendo em vista um físico saudável e equilibrado organicamente, a Educação Física esteve ligada a médicos higienistas que buscavam modificar os métodos de higiene da população, ajudando a estabelecer a matriz racista brasileira, ranços traços que são contemporâneos.Tal ideologia foi responsável por valorizar os estereótipos racistas e a construção da identidade estigmatizada estritamente ligados à questão do preconceito e da discriminação racial no Brasil, e embutido no próprio processo de aquisição da idéia, da ideologia de raça, do senso comum.

A ideologia do branqueamento se prevaleceu dos estereótipos para consolidar a imagem negativa do negro na sociedade brasileira. No discurso racista, o uso sistemático de estereótipos associados á raça serviu, e serve, para dividir e marcar os indivíduos e grupos na sociedade”. (Seyferth, 1995, apud Rodrigues, Tatiane, 2005).

A Lei 10.639/03, portanto, se apresenta como contraponto da discussão sobre o movimento cultural original do entorno da escola, contribuindo para o entendimento sobre negação de manifestações da “sub-cultura” dentro do espaço escola

Outras considerações

O momento de promoção do diálogo escola-lazer requer novos olhares e emergentes atitudes, e isto envolve a participação do sujeito social que, embebido de sua experiência, poderá estimular os aportes pedagógicos na busca de uma compreensão sobre o movimento comunitário e as manifestações e significados produzidos na comunidade.

A ambição maior do nosso artigo é contribuir para a discussão sobre valores da vida, dentro e fora da escola, considerando as localidades e manifestações culturais e de lazer como nichos identitários. Dessa forma estaremos admitindo as possibilidades de referências e repercussões na escola, buscando a compreensão dos modos, histórias e relações que perfazem o conjunto de ações capazes de instigar novos olhares sobre o movimento e a consciência.

Buscamos dimensionar os conceitos de lazer e tempo livre, hoje embutidos na pedagogia como aporte extra, o que projeta ações pejorativas em relação às manifestações localizadas na comunidade, a exemplo do hip hop, rap,pagodes e arrochas. Ao preconceituar tais manifestações, subestimamos o significado maior delas que é seu fator agregador social, cultural e político. Dessa forma fechamos as portas a um possível processo de aproximação entre pedagogia e e comunidade.

Tomando como exemplo a Lei 10.639/03 que institui a obrigatoriedade da Educação das Relações Étnico-raciais e do Ensino da História e Cultura Afro-brasileira, Africana e Indígena na educação básica, o debate pode nos oferecer um momento de reflexão sobre o que é identitário e, o que a escola fez com a diversidade, notadamente numa cidade como Salvador onde segundo o IBGE,2008 sua população é em 85% afro-descendente.

A proposta lembra ainda como os aspectos de negação e invisibilidade atuam na escola e como os referenciais multiculturais críticos podem agir para problematizar a questão.

Consideramos que o lazer não deve ser compreendido como a versão oposta ao trabalho. é preciso, pois, assumir a cultura e o lazer como fatores de um movimento comunitário afirmativo e que não encontra, dentro das pedagogias tradicionais, uma ressonância legítima.

Notas

Ritmo popular dançante definido como mistura da seresta com merengue, surgido provavelmente das periferias da cidade de Candeias, na região metropolitana de Salvador.

Dissertação sobre os impactos da Lei 10.639/03, que institui a obrigatoriedade da Educação das Relações Étnico-raciais e do Ensino da História e Cultura Afro-brasileira e Africana na Educação Básica no ensino da educação física perspectivando a Cultura Corporal.

Denominação baiana do futebol praticado sem regras rígidas e de forma lúdica, como atividade de lazer.

No dia 11 de março de 2008, (diário oficial da união) foi publicada a 11.465/08 que altera um artigo da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN) e substitui a lei 10.639/03, que já previa a obrigatoriedade do ensino sobre história e cultura afro-brasileira em todas as escolas brasileiras. A partir de agora, confere-se o mesmo destaque ao ensino da história e cultura dos povos indígenas.

Referências

DUMAZADIER, Jofre, A revolução cultural do tempo livre, 1994.
PAMPLONA, Victor, On Line, a Tarde, Internet, acessado em 15.05.2007
MARCELINO, Nelson Carvalho, Lazer e Educação, Campinas SP, Papirus – (Coleção Fazer-Lazer), 4ª edição, 1998.
RODRIGUES, Tatiane Consentino. Movimento Negro no Cenário brasileiro: embates e contribuições á política educacional nas décadas de 1980-1990 – São Carlos; UFSCar, 2005.
SILVA, Jamerson Antonio de Almeida: SILVA, Katharine Ninive Pinto, Círculos Populares de esporte e lazer, fundamentos da educação para o tempo livre. Recife, 2004, ed. Bagaço.
ARANTES, Antônio Augusto. O que é Cultura Popular? 2ª Ed. São Paulo: Brasiliense, 1981.
BOSI, Alfredo. Cultura como tradição. In: BOSI, Alfredo (org.). Cultura Brasileira: Tradição/Contradição. Rio de Janeiro: Jorge Zahar /Funart, 1987.
CHARLOT, Bernard. A mistificação pedagógica. Rio de Janeiro: Zahar, 1980.
ESTEVAM, Carlos. AP/ Cultura popular. In: FAVERO, Osmar (org.). Cultura popular e educação popular: memória dos anos 60. Rio de Janeiro: Graal, 1983.
FISCHER, Ernest. A Necessidade da Arte. 2ª ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1967.
GADOTTI, Moacir. Concepção dialética da educação e educação brasileira contemporânea. In: Rev, Educação e sociedade. v.8. São Paulo: Cortez; Autores Associados. mar 1981. (p.5-32).
PAIVA, Vanilda Pereira. Educação popular e educação de adultos. São Paulo: Loyola, 1970.
PAULA SILVA, Maria Cecília de. Da Educação Física, moral e intelectual a um corpo idealizado: desvelando o discurso médico nas teses da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. 2002. Tese (Doutorado em Educação Física) – PPGEF-Universidade Gama Filho, Rio de Janeiro.
TRAVASSOS, Elizabeth, Revista Do Patrimônio Histórico E Artistico Nacional. Arte e Cultura Popular No 28. ORG. IPHAN. Ministério da Cultura. Secretaria do Livro e da Leitura.
PAULA SILVA, Maria Cecília de: Cultura Corporal, Esporte, Lazer E Arte: Um Estudo Histórico Cultural Afrodescendente A Partir do Ne do Br–Ba, 2007.

Esporte



O esporte enquanto elemento educacional

Welington Araújo Silva


welingtonaraujo@uol.com.br(Brasil)



O presente artigo, elaborado a partir de experiências diversas no exercício da docência em Educação Física Escolar, procura discutir o esporte enquanto um conteúdo rico de sentidos e significados, apontando possíveis caminhos para um ensino contextualizado, onde as técnicas esportivas não sejam os únicos elementos do processo ensino/aprendizagem.


Introdução

Nas salas de aula, nas quadras, nos seminários, encontros e debates, o esporte está sempre na pauta das discussões. Sejam essas de cunho informal, como a que observamos nos comentários e análises dos torcedores brasileiros após um intenso final de semana esportivo; ou revestido de um caráter mais formal, onde as análises são mais aprofundadas, com o intuito de entender determinado fato esportivo ou o seu influxo no dia a dia. Nessas discussões, geralmente, o tema "esporte" gira em torno de questões, como:
- O esporte é o ópio do povo?
- O esporte é capaz de promover, naquele que o pratica, uma certa consciência crítica, ou ele, por si só, da forma como se encontra estruturado, é um elemento a mais a forjar indivíduos aptos a exercerem os seus papéis frente ao nosso sistema econômico?
- A quem serve o esporte?
- A violência que graça os palcos esportivos traduz, de alguma forma, a falência do sistema político onde o esporte está inserido?
- Pode o esporte, em uma sociedade de estrutura de classe burguesa, transformar-se em um fator contra-ideológico dessa sociedade?
- É o esporte um instrumento de transformação ou de dominação?
Todas essas e outras indagações permeiam atualmente as discussões sobre o esporte entre aqueles que estão preocupados com o rumo do mesmo, no interior das escolas brasileiras - sejam elas públicas ou privadas. Cabe explicitar que, este artigo, não tem a intenção de responder a todas essas perguntas e, tampouco, esgotar as questões supra-citadas mas, apenas, evidenciar alguns elementos, no intuito de contribuir para as discussões pertinentes ao esporte, bem como propor alguns conteúdos temáticos, no sentido de redimensionar a nossa práxis pedagógica, levantando algumas considerações a respeito da nossa ação no contexto escolar.

Esporte: fenômeno social

Esse debate, que se iniciou efetivamente no início da década de 80, tem levado alguns professores de educação física a se questionarem e a tomarem determinadas decisões, repensando a sua metodologia e promovendo uma transformação substancial no ensino do esporte na escola.
Ao visitarmos algumas escolas de Salvador, fica mais do que evidente, que a afirmação supra-citada ainda não corresponde à totalidade dos professores. No entanto, percebe-se uma tentativa efetiva por parte de uma pequena parcela dos docentes em fazer, da sua aula, um momento de desenvolvimento das potencialidades humanas amplas, onde elementos como o mercantilismo do esporte, a violência das torcidas organizadas, dos jogadores em campo, a discriminação dos negros e da mulher, só para citar alguns exemplos são partes integrantes da metodologia de alguns professores da rede pública de ensino da referida cidade.
Nesse sentido, o professor de educação física, tendo em vista a importância que assume o esporte como conteúdo das suas aulas, precisa refletir cotidianamente sobre a sua ação docente, quando da intenção de fomentar esse fenômeno social, que nos últimos tempos tem assumido uma dimensão bastante significativa em todo o mundo, despertando paixões, emoções e interesses diversos.
E é justamente a dimensão educacional sobre a ótica da concepção histórico-crítica que precisa ser cada vez mais valorizada no universo escolar, onde o esporte envolve-se em uma roupagem performática, priorizando os talentosos em detrimento dos "pernas-de-pau", criando:
uma espécie de dupla pedagogia, pela qual um grupo de alunos, minoritários, está submetido a uma proposta inspirada no esporte de alto rendimento, enquanto o restante, que é a maioria, é desconsiderado pela escola. (RIGOR, 1995, p.90)
Restringe, portanto, o professor, a abordagem do esporte em sua dimensão de performance, enfatizando as questões técnicas, aproveitando apenas aqueles alunos que já as dominam, que já sabem o esporte. Nesse sentido, o esporte é ensinado de forma descontextualizada, os rumos da ação pedagógica são caracterizados pela insistência na abordagem do esporte de rendimento, buscando sempre a otimização dos movimentos técnico-gestuais, onde não se leva em consideração o ritmo de cada aluno.
Se quisermos mudar essa característica de abordagem do esporte escolar, temos de ter consciência do tipo de homem que queremos formar e do tipo de sociedade que queremos ter. Sem essas idéias claras, será difícil uma prática consciente e transformadora. Assim, vale ressaltar, que se faz necessário saber quais os valores que intrinsecamente estão sendo abordados e reforçados no bojo do ensino do esporte na escola.

A dimensão multifacetária do esporte

O esporte moderno, oriundo da burguesia inglesa do século XIX, que, ao longo do tempo, foi criando características próprias onde a especialização, a busca de rendimento e a mercantilização, dentre outros aspectos, aparecem, atualmente, como sendo suas marcas principais, transforma-se a cada dia que passa pela sua abrangência e relações em um fenômeno transnacional, que envolve diferentes classes, raças e crenças, despertando paixões e emoções diversas.
A estruturação do esporte moderno, a partir de elementos característicos das sociedades capitalistas, favoreceu algumas críticas por parte daqueles que o viam como um dos instrumentos de dominação burguesa. Esses autores compreendem, que
Pelas regras das competições, o esporte imprime no comportamento, as normas desejadas da competição e da concorrência; as condições do esporte organizado ou de rendimento são, simultaneamente, as condições de uma sociedade de estruturação autoritária. O ensino dos esportes nas escolas enfatiza o respeito incondicional e irrefletido às regras e dá a estas um caráter estático e inquestionável, o que não leva à reflexão e ao questionamento, mas sim ao acomodamento.(BRACHT, 1992, p. 59)
Devido a tais afirmações e entendimento, que Bracht (1992) considera como disfuncionais do processo de socialização através do esporte, muitas críticas ao esporte foram construídas pelo alto comando soviético após a revolução de 1917, pois, o mesmo, entendia-o como um divertimento de base burguesa.
Essas considerações nos permitem perceber que existem diferentes conceitos e entendimentos sobre o esporte, e que esses determinam o seu caráter de utilização em diferentes estruturas sociais, pois o esporte...
(...) assim como outras esferas sociais, tais como a educação, a saúde, a comunicação etc., não possui poderes mágicos para existir independentemente das relações entre os sujeitos que as tornam reais, concretas e objetivas. (LOPES, 1987, p.82).
Portanto, o primeiro passo para compreender o esporte em uma dimensão multifacetada, é pensá-lo como algo real, que sofre influência do meio externo e das pessoas que o praticam. O segundo passo, é compreendê-lo de forma ampla, não o restringindo a sua dimensão social em apenas um tipo de abordagem: o esporte de rendimento.
Essa dimensão sócio-cultural do esporte é a que mais está evidente na prática esportiva escolar, onde o professor de educação física, em busca de uma valorização profissional, que por sua vez é medida pelos números de torneios vencidos, medalhas adquiridas ou de troféus erguidos, deixa de considerar alguns elementos essenciais para a estruturação de uma aula realmente educativa, contra-hegemônica, reforçando a competição exacerbada e a discriminação através da seletividade e do individualismo.
Nas universidades, berço de formação dos professores que vão atuar com o esporte na escola, essa cultura esportiva é alimentada de forma sistemática. Muitas vezes, nas próprias academias, o esporte não é pensado criticamente e nem valorizado enquanto elemento da nossa cultura corporal. Ao contrário, os alunos dos cursos de licenciatura e bacharelado em educação física trazem, em sua história de vida, elementos do esporte de rendimento praticados por eles antes de ingressarem na universidade e esta, com a sua prática irrefletida, reforça esses movimentos corporais estereotipados, estendendo-o à escola.
E é no ambiente escolar que os maiores equívocos são cometidos por parte dos professores, que enfatizam a eficiência, eficácia e rendimento. São por essas e outras questões que quando perguntamos a algumas pessoas o que elas vêem de essencial no esporte, as respostas são quase sempre vazias de significados. Não sabem responder, por exemplo, o que de importante elas aprenderam no vôlei ou no basquete, que não tenha sido apenas relativo aos gestos técnico-esportivos. Sem falar naqueles que se sentiram totalmente à margem do processo, por não terem as habilidades imprescindíveis à prática do esporte escolar.

Esporte escolar: aprendizagem significativa-existencial-coletiva

Praticamos muito esporte, mas refletimos pouco sobre ele e sobre os conteúdos que dele emergem. O racismo, o individualismo, a ética, a passividade, a inércia, a violência, a agressividade e tantos outros fatores que surgem na sua prática, são pontos considerados relevantes para uma discussão com os alunos no interior da escola, mas o que tem sido feito? Apenas transmitem-se técnicas e estilos de ensino do esporte aos alunos, fazendo com que eles aprendam um esporte e não com o esporte, em uma abordagem eminentemente tecnicista, elitizando uma parcela do alunado. No entanto, essa postura seletiva, elitista e discriminadora tem que se transmudar em uma temática socializante, pois...
(...) cabe ao professor engajado na luta mais ampla, que excede o âmbito da escola e do sistema de ensino, escolher entre fazer de sua ação pedagógica um instrumento que apenas reproduz as violências educacionais (desigualdades, discriminação, preconceitos, etc) ou torná-la uma poderosa arma de negação desta caótica situação. (CARMO, 1985, P. 39).
Para que isso aconteça, é necessário que os professores estejam sempre alertas para os acontecimentos do dia a dia como fatores de enriquecimento dos conteúdos, nesse caso, o esporte. É preciso fomentar a crítica, questionar o cotidiano. Porque não, como propõe Pey (1991), no bojo de uma aprendizagem significativo-existencial-coletiva, vertermos a nossa crítica para o vivido aqui e agora, interpretando e questionando a realidade que nos circula?
Aqui, pode-se relembrar o que aconteceu após a Copa do Mundo de 1994, nos Estados Unidos da América, onde aconteceu o episódio da Seleção Brasileira a respeito dos produtos que os jogadores traziam em suas bagagens. Produtos esses que, de acordo com a Lei, deveriam ser taxados devido ao excesso de peso, porém nada aconteceu. O fato teve grande repercussão na imprensa falada e escrita e alguns questionamentos surgiram: liberam ou não o imposto? Todos pagam impostos no Brasil? O fato de os atletas serem tetra-campeões lhes davam o direito de exigirem isenção?
O referido fato trouxe à tona esses e outros questionamentos. Não seria o caso de se refletir mais profundamente com os alunos sobre esta situação ou outra, trazendo às aulas elementos do próprio cotidiano? Poderiam ser solicitadas entrevistas ou algo que o valha, opiniões dos familiares e amigos sobre o assunto, culminando em debates e seminários em sala de aula.
Na Copa da França tivemos a denúncia de jornalistas a respeito da interferência de uma famosa marca de tênis sobre a Seleção Brasileira. O que está sendo feito com esses elementos que permeiam a prática não só do futebol, mas do esporte de uma forma geral? É uma pena constatar que muitos professores, segundo Carmo (1985), assistem passivamente pela televisão as violências nos campos de futebol, os subornos, os artifícios espúrios de que alguns dirigentes lançam mão para vencerem, e nem sequer aproveitam estas condições para despertar nos alunos o senso crítico, na busca dos determinantes destes fatos!

Conteúdos temáticos: proposta metodológica

As reflexões levantadas até aqui apontam para um nível de compreensão do esporte a partir da perspectiva histórico-crítica, onde a busca dos gestos esportivos performáticos não sejam o essencial na nossa ação educativa. Um elemento tão rico em significados, não deveria ser colocado em um plano tão reduzido.
No cotidiano das aulas de educação física, é perceptível uma prática reprodutora do esporte de rendimento que é vivenciado na mídia televisiva: esgota-se em cada aula para ser, na próxima, mais uma vez reproduzida, sempre com um fim si mesma. E é no sentido de superação dessa realidade, que se propõem alguns temas na intenção de subsidiar as aulas.
As propostas que serão apresentadas aqui, foram estabelecidas a partir de discussões com alguns colegas da área, em cursos que tive a oportunidade de ministrar e no cotidiano escolar:
Permitir a exploração de gestos e movimentos diversos na resolução de problemas apresentados pelo professor. Exemplo: 1- O que é arremesso? 2- Quais os tipos de arremessos que podem ser feitos? 3- Existem outras formas de arremessar? 4- Em que outras situações do cotidiano utilizamos o arremesso?;
Partindo do esporte já normatizado, perguntar: 1- Todos podem fazer parte desse esporte? 2- O que impossibilita a participação de todos? 3- Podemos mudar as regras?;
Dentro da perspectiva de que os alunos trazem consigo histórias próprias de movimentos esportivos, permitir que eles proponham a sua forma de utilização;
Abordar os fenômenos esportivos e as questões mais amplas que envolvem o esporte, tais como: a violência das torcidas organizadas, o papel dessas torcidas no espetáculo esportivo, a "charanga", as músicas cantadas, os subornos, o doping , a discriminação racial entre outros em forma de seminários, envolvendo toda a escola;
Abordar as mudanças que o esporte sofreu ao longo do tempo. Se possível, vivenciar essas mudanças;
Experimentar a vivência de diferentes materiais em atividades semelhantes, observando e discutindo as dificuldades sentidas pelo grupo;
Elaborar seminários, através de pesquisas sobre diversos temas relativos ao esporte;
Desenvolver painéis alusivos ao tema que estiver sendo trabalhado em aula, espalhando pela escola;
Desenvolver olimpíadas inter-salas e/ou escolares onde os alunos participem na estruturação das mesmas, inclusive nas modificações das regras dos jogos onde a tônica deverá ser a participação de todos.
Conclusão
Os pontos abordados são formas metodológicas que podem ser utilizadas nas aulas, respeitando a faixa etária do aluno, bem como a sua realidade. É importante que o professor fique atento para o surgimento de outros conteúdos temáticos na dinâmica da sua aula, para que, desta forma, o fenômeno esportivo ganhe mais sentido e significado no cotidiano escolar. Observar o esporte e as suas relações com o mundo que o cerca, e permitir uma compreensão crítica do mesmo junto com o aprendizado dos movimentos gestuais que possibilitem o jogar, é o mínimo que se espera do professor de educação física.


Referência bibliográfica

BRACHT, Valter. Educação Física e Aprendizagem Social. Porto Alegre, Magister, 1992.
CARMO, Apolônio Abadio do. Educação Física: Competência Técnica e Consciência Política: em busca de um movimento simétrico. Uberlândia, UFU, 1985.
PEY, Maria Oly. Reflexões Sobre a Prática Docente. São Paulo, Edições Loyola, 1991.
RIGOR, Luiz Carlos. A Educação Física fora de forma. In: Revista Brasileira de Ciências do Esporte. Santa Maria, UNIJUÍ. Vol. 16, Nº. 02, 1995, p. 82-93.

Cultura







Escola e cultura(s): repercussões e possibilidades para uma prática pedagógica intercultural



Andréia Paula Basei andreiabasei@yahoo.com.br (Brasil)


Resumo


O presente estudo teve como objetivo refletir sobre a escola enquanto um espaço permeado pela diversidade cultural e nesse espaço, as repercussões desse cruzamento de culturas e as possibilidades de se desenvolver uma prática pedagógica visando entender e atender as diferentes necessidades a partir de uma perspectiva intercultural. A educação escolar ao contrário do observamos atualmente, não pode se limitar a transmitir os conhecimentos disponíveis em um dado momento, visando justificar a ideologia dominante em detrimento as classes populares e grupos culturalmente marginalizados. Por isso, defendemos que a educação deve pautar-se por uma perspectiva intercultural.
Unitermos: Educação Física escolar. Prática pedagógica. Educação Intercultural. Cultura de movimento.
Introdução


Vivemos em um mundo globalizado, mas altamente diversificado culturalmente. Este fato apresenta-se como um desafio para a sociedade atual, pois as grandes transformações ocorridas estão a toda hora desafiando os cidadãos a uma nova situação de vida, atingindo diretamente as tradições mais cristalizadas de nossa sociedade. Isso provoca um processo de desenvolvimento social que, na maioria das vezes, é carente de uma reflexão crítica, pois os sujeitos encontram-se subordinados a uma macroestrutura de mercado que os impõe determinados 'produtos' e concepções impostos pela cultural hegemônica.
Esta situação determinou, e esta determinando, as transformações e revoluções da humanidade, em alguns casos com mais intensidade que outros. Sendo assim, é necessário refletirmos sobre o momento histórico pelo qual estamos passando, onde não é mais possível tratar de fatos isolados, de contextos fechados, mas há que se considerar toda a complexidade que se criou como resultado de uma construção histórico-cultural do homem em seu contexto, da existência do ser-no-mundo.
Neste sentido, acreditamos que a escola é de fundamental importância, visto que, ela pode desenvolver em seus alunos, esta capacidade de análise e reflexão crítica. Para isso, a escola deve ser compreendida como integrante do processo de formação do cidadão e da sociedade e não apenas, como uma mera reprodutora de conhecimentos, mas como uma produtora de conhecimentos comprometida socialmente.
No entanto, o que observamos em nossa realidade, muitas vezes, é uma escola que ainda está esperando que digam qual o caminho a seguir, o que ensinar e qual projeto cultural e social a ser desenvolvido. Assim, acreditamos que é de fundamental importância nas discussões e práticas educacionais a ampliação e radicalização das questões culturais, onde percebemos um forte componente de intervenção e transformação de situações características em nossa sociedade, tais como: a injustiça social, a exclusão, racismo, entre outras.
Dentro desse contexto, o presente estudo teve como objetivo refletir sobre a escola enquanto um espaço permeado pela diversidade cultural e nesse espaço, as repercussões desse cruzamento de culturas e as possibilidades de se desenvolver uma prática pedagógica visando entender e atender as diferentes necessidades a partir de uma perspectiva intercultural.
Escola como um espaço de cruzamento de cultura(s)
Diante da complexidade que se estabelece ao relacionarmos educação/escola e cultura(s), o debate que deve nortear essa preocupação é como deve se dar essa relação, sob quais orientações. Para isso, acreditamos na necessidade de pontuar algumas concepções que servem de sustentação para nossa reflexão.
Num primeiro momento, buscamos uma fundamentação de cultura trazendo as contribuições de Pérez Gómez (2001, p. 17), ao escrever que assume
[...] cultura como o conjunto de significados, expectativas e comportamentos compartilhados por um determinado grupo social, o qual facilita e ordena, limita e potencia os intercâmbios sociais, as produções simbólicas e materiais e as realizações individuais e coletivas dentro de um marco espacial e temporal determinado. A cultura, portanto, é o resultado da construção social, contingente às condições materiais, sociais e espirituais que dominam um espaço e um tempo.
O conceito de cultura, portanto, denota um padrão de significados transmitidos historicamente, incorporado em símbolos. Sendo assim, acreditamos que conforme aponta Candau (2002) o grande desafio sobre a questão cultural é lidar com a diversidade, com a multiplicidade de tendências em relação a questão da(s) cultura(s).
Nesse sentido, percebemos que a escola seria um espaço importante para as discussões que envolvem tal questão e suas representações na sociedade. Contudo, da forma como a escola está organizada difundindo, pelo que observamos na maior parte das realidades educacionais, um projeto cultural dominante, imposto, este espaço encontra-se fechado. Para tanto, concordamos com Pérez Gómez (2001, p.17) ao afirmar que, é necessário que se passe a
[...] considerar a escola como um espaço ecológico de cruzamento de culturas, cuja responsabilidade específica, [...] é a mediação reflexiva daqueles influxos plurais que as diferentes culturas exercem de forma permanente sobre as novas gerações.
Partindo dessa compreensão, a educação escolar ao contrário do observamos atualmente, não pode se limitar a transmitir os conhecimentos disponíveis em um dado momento e o pior, visando justificar a ideologia dominante em detrimento as classes populares e grupos culturalmente marginalizados. Por isso, defendemos que a educação deve pautar-se por uma perspectiva intercultural. É importante salientar que existem outros termos usados para se definir tal perspectiva, tais como multiculturalismo, multiculturalismo crítico e o próprio interculturalismo, o qual definimos como termo a ser utilizado, por compartilhar da idéia dos autores que o utilizam e que conforme eles proporciona uma maior comodidade léxica.
A perspectiva intercultural surge em contraposição a visão essencialista e reducionista proposta pelo monoculturalismo e multiculturalismo. Segundo Forquin (1993), enquanto o multiculturalismo se satisfaz com uma composição cultural mosaica, o interculturalismo define a diferença como uma relação dinâmica entre duas entidades que se dão mutuamente um sentido.
De acordo com Fleuri (1999), a estratégia intercultural consiste antes de tudo em promover a relação entre as pessoas, enquanto membros de sociedades históricas e culturalmente muito diversificadas. Através desse contato dialógico, é possível a construção de cidadãos emancipados e de uma sociedade democrática, mais justa e igualitária em sua diversidade.
Sob esta perspectiva, acreditamos que o objetivo da escola, está relacionado com as idéias apresentadas na visão gramsciana, onde é necessário que nela,
[...] seja dada a criança a possibilidade de formar-se, de tornar-se um homem, de adquirir os critérios gerais que sirvam ao desenvolvimento do caráter. Uma escola que não hipoteque o futuro da criança e constranja a sua vontade, sua inteligência, sua consciência em formação a mover-se dentro de uma bitola. Uma escola de liberdade e de livre iniciativa e não uma escola de escravidão e mecanicidade (GRAMSCI apud BARBOSA, 2001, p. 23).
Princípios norteadores da prática educativa em direção a educação intercultural e a emancipação humana
Uma das condições fundamentais para práticas educativas interculturais e para a promoção da emancipação humana é a necessidade de uma reestruturação cultural das formas de agir, sentir e pensar o mundo, e portanto, a educação. No entanto, essa reestruturação, de nada servirá se não implementarmos mudanças em aspectos culturais enraizados em nossas escolas. Uma unidade dialética deverá ser a base das estruturas de pensamento para as ações que se desenvolvem no âmbito escolar, relacionando teoria e prática, objetividade e subjetividade, o local e o global.
Nesse sentido, consideramos as idéias pedagógicas de Freire (1983) e sua visão de liberdade. Para ele, a liberdade é a matriz que dá sentido à prática educativa, que só pode ser efetiva e eficaz à medida que haja a participação livre e crítica dos educandos. Educar significa, ser uma crítica à opressão real, na qual os homens vivem, e, ao mesmo tempo, uma expressão de luta por sua libertação. O aprendizado aqui é visto como um modo de tomar consciência do real e só pode acontecer dentro dessa tomada de consciência. Dessa forma, a prática educativa é uma prática social porque é uma atividade humana distinta do comportamento espontâneo, e a teoria pedagógica compreende que,a educação, inserida num projeto histórico-social da emancipação humana, tem por tarefa desenvolver competências para o Agir (conhecimentos, habilidades, estruturas de pensamento e condições de lidar com afetividade, capacidades de fazer), de forma a propiciar aos indivíduos recursos para participarem da vida social.
Sendo assim, acreditamos na necessidade de desenvolvermos nos educandos as competências sociais necessárias para emancipar os sujeitos, levando em conta a diversidade na qual estão inseridos. Para isso, apontamos a seguir alguns princípios e eixos norteadores para as práticas educativas, não como um modelo a ser seguido, uma receita pronta que emprega perspectivas didáticas infalíveis e inquestionáveis para solucionar problemas, mas como uma proposta para o desenvolvimento das competências sociais1 necessárias para emancipar os sujeitos e promover diálogos que façam surgir novas sugestões.
Um dos princípios que adotamos é a consideração dos sujeitos como o eixo principal, ou seja, tudo gira em torno dos sujeitos, sejam eles professores, alunos ou pessoas da comunidade externa, todos são considerados sujeitos históricos, culturais e sociais que convivem em um determinado contexto e possuem as representações simbólicas deste meio que criaram, do qual usufruem e modificam suas ações, modelando sua identidade.
Considerando que cada sujeito é portador de uma identidade, que regula suas ações, vamos ao encontro de outro princípio que deve ser adotado: cada sujeito deve ter o direito de expressar-se e expressar os conteúdos próprios de cultura. Este é um ponto interessante, haja visto que o fato de uma proposta intercultural não se trata, conforme nos afirma Jordan (1996 apud CANDAU, 1998, p. 56-57), simplesmente de trazer determinadas atividades, eventualmente para dentro da escola, mas sim, de deixar que essas atividades apareçam durante a aula, e os "donos" da idéia possam se expressar livremente.
E ainda, outro princípio que se propõe é que a estrutura curricular, a divisão dos conteúdos deve ser considerada em sua totalidade, entendida como um todo organizado de modo a distribuir os conteúdos buscando integrar os aspectos sócio-culturais às expectativas dos alunos. Sendo assim, os conteúdos trabalhados devem atender as necessidades dos alunos, de modo a não tornarem-se abstratos, pois mesmo buscando uma educação intercultural estes conteúdos devem estar relacionados com as vivências e conhecimentos que os alunos tem destes e da realidade que observam fora do ambiente escolar.
A fundamentação desta proposta com estes princípios aparecem, para nós vinculados a alguns eixos norteadores. Sendo assim, o primeiro a considerar-mos é que não existe superioridade cultural, mas sim, diversidade cultural. Através do reconhecimento dessa diversidade que forma um todo organizado, será possível a compreensão das diferenças dentro da aula, como por exemplo, o entendimento dos motivos que unem esses sujeitos, essas culturas, em torno dos esportes normatizados e faz deles esse grande espetáculo no mundo todo.
Outro eixo norteador é o fato de todas as culturas possuírem sua escala de valores, ou seja, o que pode ser extremamente significativo para alguns, para outros não tem sentido, como no caso da dança, por exemplo, a qual está perdendo cada vez mais seu espaço em nossa região, já em outros lugares, é considerada um espetáculo comparado ao futebol. Partindo desse entendimento vamos ao encontro de outra questão importante, ou seja, respeitar e conhecer os valores de outras culturas não implica necessariamente em adotá-los, e aí esta a função da escola de transmissão cultural, e da Educação Física de tratar da cultura de movimento, pois ela deve, ao invés de priorizar determinadas manifestações, tratar da maior diversidade possível, possibilitar uma gama muito variada de experiências.
E, por último e um dos fatores de grande relevância de promover-se uma educação intercultural, é que é justamente a diversidade cultural que enriquece os indivíduos, possibilita que os sujeitos construam suas ações e transformam-se de acordo com as experiências dos outros sujeitos, já que, como considera Geertz (1989), somos seres inacabados, que nos completamos através da cultura em constante transformação.
Contudo, a estrutura e desenvolvimento de uma proposta com base na interculturalidade é complexa e exige uma boa base, ou seja, conhecimento dos professores atuantes, para que estes possam realizar seu trabalho e alcançar seus objetivos num processo onde os alunos envolvidos compreendam o que e porque estão agindo de uma forma e não de outra. E este, é um processo a longo prazo que exige interesse, dedicação e planejamento.
Considerações finais
Educação e cultura(s), em nosso entendimento são questões a ser discutidas e ressignificadas no espaço escolar, haja visto que, com a incorporação de um currículo monocultural, transmitindo/impondo valores de uma cultura hegemônica, os alunos estão perdendo cada vez mais sua criatividade e criticidade.
Havendo a necessidade de um planejamento e uma reestruturação das formas de agir na educação, onde os conteúdos estejam adequados a realidade vivida pelos alunos e os objetivos de formação estejam conectados com a necessidade de formar sujeitos capazes de entender e viver num mundo marcado pela diversidade, é que acreditamos na necessidade de buscar subsídios na perspectiva intercultural para orientação das práticas educativas.
Através dessa perspectiva, a qual está embasada nos princípios e eixos norteadores apresentados, acreditamos na possibilidade de contribuir na formação dos alunos e suas possibilidades de agir no mundo como sujeitos emancipados. Contudo, este é um processo a longo prazo que deve ser incorporado desde a formação de professores, pois não se trata de incluir mais uma disciplina no currículo, ou organizar programas eventuais dentro do espaço escolar. E isso, exige conhecimento, interesse, dedicação e planejamento por parte dos professores, saindo da limitação das práticas tradicionais, descontextualizadas, sem sentido e significado para uma formação autônoma, critica e criativa, uma efetiva formação cidadã.


Nota

Utilizamos o termo competência social aqui referindo-se às condições necessárias para o sujeito agir no seu mundo de forma autônoma, crítica e efetiva, buscando a superação do dado e das estruturas conservadoras que o mantém num estado passivo de contemplador das situações desiguais de vida.



Referências

BARBOSA, C. L. A. Educação Física Escolar: as representações sociais. Rio de Janeiro: Shape, 2001.
CANDAU, V. M. (Org). Reinventar a escola. Petrópolis, RJ: Vozes, 2000.
______ (Org.). Sociedade, educação e cultura(s): questões e propostas. Petrópolis, RJ: Vozes, 2002.
FLEURI, R. M. Desafios a educação intercultural no Brasil. Florianópolis, 1999. Lecturas Educación Física y Deportes, Revista Digital. Disponível em: http://www.efdeportes.com. Acesso em 27 fev. 2005.
______. Intercultura e Educação. Revista Brasileira de Educação, nº 23, maio/ago, p. 16-35, 2003.
FORQUIN, J. C. Escola e cultura: as bases sociais e epistemológicas do conhecimento escolar. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993.
FREIRE, P. Educação como prática de liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996.
______. Pedagogia da autonomia: saberes necessários a prática educativa. 11 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1998.
______. Pedagogia do Oprimido. 14 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983.
GEERTZ, C. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LTC, 1989.
PÉREZ GÓMEZ, A. I. A cultura escolar na sociedade neoliberal. Poro Alegre: Artmed, 2000.

Escola com PPP

"A escola que tem na sua carta de intenção para com a comunidade, o Projeto Político Pedagógico, a sintese dos anseios sociais, políticos e econômicos do território em que faz parte, pode ser chamada de uma escola cidadã, esta trará com sigo elementos que possibilitarão o desenvolvimento efetivo da comunidade, pois as metas e objetivos ali traçados, responderão primeiramente às necessidades da comunidade local.
A escola como um ambiente de desenvolvimento social e democrático só ocorrerá de fato quando os PPP’s estiverem implantados de maneira legítima em cada uma das Unidades Escolares do Brasil, só a partir daí poderá estabelecer-se parâmetros mais tangíveis para a aplicação da política pública nacional e da Legislação Brasileira para educação. A escola com PPP traz possibilidades de diálogos contínuos, debates que geram conhecimento e soluções para os problemas do grupo. A liberdade de expressão e o respeito à diversidade facilitam o alcance dos objetivos sociais da escola.
A necessidade de romper-se os aspectos estigmatizantes da sociedade nordestina na expectativa de nos enxergarmos de maneira ampla como cidadãos brasileiros portadores de direitos e deveres e que a partir da nossa realidade local podemos interagir com o ambiente nacional e mundial, partindo para uma visão mais ampla de humanidade. Em uma escola com o Projeto Político Pedagógico que não negligencie a necessidade da população e que possua atores: educadores, gestores e envolvidos de uma maneira geral, que trazem com sigo antes de qualquer coisa, a consciência de cidadania e a percepção de que os interesses do coletivo são bem mais importantes para ganhos de longo prazo que a atitude egocêntrica de priorizar os interesses individuais em decorrência do sacrifício do coletivo. O nordestino estabelecerá o seu posicionamento frente à população brasileira como cidadão de fato, à medida que o resgate da sua identidade, aliada ao exercício da cidadania possibilitarem condições humanas, dignas e modernas de sobrevivência em seu território de origem."

Vantagens

Quem Participa?

Metodologia de Trabalho para a Construção do PPP


Ter método para a construção coletiva do PPP é fundamental para obter êxito. O caminho a seguir na condução desse trabalho, as técnicas e procedimentos utilizados são muito importantes serem considerados para o alcance dos resultados desejados.
Na caminhada rumo ao PPP estruturado e legitimado, a metodologia de trabalho pode fazer a diferença nos resultados. Muitas vezes temos visto boa fundamentação, intenção correta, porém resultados irrelevantes em razão dos métodos adotados na condução desse importante trabalho. Você concorda? Tem algum caso a relatar nesse sentido? Compartilhe suas experiências.
Vários são os caminhos para se obter um PPP na escola. Portanto cabe muita reflexão para fazer a escolha mais adequada e que assegure os melhores resultados.
Questões que a equipe escolar deve considerar nesse aspecto:
Quem participa, como participa e quando participa?
Qual(is) princípio(s) metodológico(s) de elaboração será(ao) adotado(s)?
Que grandes itens trabalhar para compor o projeto?
Como encarar as contradições e conflitos que surgirem?
Quais os tempos aceitos pela escola na construção do PPP?
Como resolver a questão: projeto bem feito X projeto com identidade da escola ?
O que pode dificultar a construção do PPP e como enfrentar proativamente essas dificuldades?


Quem Participa da Construção

...Metodologia na construção do PPP


Quem participa da construção do PPP? Como e quando? São questões que devem ser respondidas pelas diretrizes configuradas nas regras da participação, da legitimidade, da democracia.
Para ser legítimo, o
Projeto Político-Pedagógico precisa ter a participação de toda a comunidade educativa, diretamente ou por representatividade também legítima e democrática. Indispensável é que à frente de sua construção esteja a direção escolar, exercendo sua liderança na coletividade, mobilizando e estimulando todos à participação, compartilhando e orientando. Este é um tema importante da gestão escolar e que exige competência para sua direção.
Uma estratégia recomendada para a cosntrução do PPP é a organização de grupos multidisciplinares dos diversos segmentos da
comunidade escolar (administrativo, técnico, pedagógico, financeiro) que respondem coletivamente às questões levantadas para cada tópico. As respostas são recolhidas por uma equipe escolhida para proceder à sistematização dos tópicos a partir dessas respostas dos grupos. Em rodadas de discussões coletivas - posteriores à primeira sistematização – vai-se aperfeiçoando o Projeto para que traduza a identidade desejada pela escola para a ação educativa global.
Pense...
Como mobilizar a comunidade escolar em torno da construção de seu Projeto Político-Pedagógico? Que estratégias são facilitadoras desse processo?

...Fatores que podem dificultar a construção do PPP

Que fatores podem dificultar a construção do Projeto Político-Pedagógico da escola? Nesse processo muitos fatores podem interferir de modo a comprometê-lo. Cuidados e medidas precisam ser adotadas para evitá-los ou minimizá-los.
A partir dos estudos de Vasconcelos (2006) e Cardoso (2007), os seguintes fatores merecem atenção especial, sob pena de prejudicar total ou parcialmente o
Projeto:
  • Perfeccionismo: querer chegar a um texto extremamente preciso e correto
  • Falta de esperança/confiança na instituição: não adianta falar que nada vai acontecer mesmo;
  • Imediatismo: ter pressa, não querer”perder tempo” com as discussões;
  • Comodismo por parte dos sujeitos: não quererem a desacomodação que poderá vir em decorrência da concretização das idéias ali colocadas;
  • Falta de exercício democrático na escola;
  • Falta de experiência de caminhada comum, enquanto grupo, devido à rotatividade das pessoas da instituição;
  • Mera reprodução do novo senso comum pedagógico ( modismos );
  • Formalismo: perigo de reduzir o Projeto a uma seqüência de passos, a simplesmente elaborar um documento, sem vida, sem significado, sem envolvimento com as idéias, com as propostas;
  • Nominalismo: achar que definir uma linha de trabalho para a escola é se “filiar” a alguma concepção corrente ( educação libertadora , construtivismo , etc);
  • Falta de condições objetivas de espaço-tempo para encontro, reflexão, elaboração e acompanhamento.

Ao detectar algum desses fatores, é imprescindível enfrentá-lo com estratégias adequadas para sua superação.
Que outros fatores você entende podem trazer obstáculos à construção do PPP?
SAIBA MAIS SOBRE ESTE ASSUNTO EM: Metodologia de Trabalho para elaboração do Projeto ( Vasconcelos, 2006).
Ainda sobre a Metodologia para construção do PPP

Um dos recursos metodológicos mais utilizados hoje para a construção do PPP é o da problematização, sintetizada em perguntas. Vasconcelos ( 2006) posiciona-se quanto a esta escolha justificando que a pergunta ”provoca um desequilíbrio no sujeito, para estabelecer um desafio que leve a uma reflexão e produção”.
De fato, perguntas bem feitas - com foco, simplicidade e precisão - facilitam qualquer processo de participação. Elaborar as perguntas adequadas para cada tópico a ser trabalhado no PPP - cujas respostas possibilitem sistematizar o pensamento da coletividade educadora - é um recurso metodológico poderoso.